CAPÍTULO
2
“EL
CORREGIDOR”
Chegamos a um bar
numa das esquinas internas da Plaza Maior, “El
Corregidor” diz na madeira esculpida e pendurada na parede
direita da porta de entrada do bar, que é de um espanhol filho de
brasileiro com espanhola, o Daniel. Fui muito bem recebido
por ele e por todos ali, conheci nesta tarde a Norma, o André, o
Alemão, a Ciça e a Carlinda, todos brasileiros e todos amigos da
Dina.
A Norma e a Carlinda
eram funcionárias da embaixada brasileira em Madrid, o André e o
Alemão eram paulistas de campinas e a Ciça era uma baiana linda de
Camaçari, com seus cabelos no maior estilo Caetano Veloso, sorriso
alvo estampado no rosto e olhos chapados, havia recém chegado do
Brasil também, tinha uma semana e meia a mais que eu. Pronto eu já
estava enturmado.
Bom! Eu ainda tinha
que buscar onde hospedar-me percebi que na casa da Dina não ia
rolar, e ali era o momento de pedir conselhos de onde ficar, e pela
primeira vez ouvi alguém falar a palavra “Hostal” que é
uma espécie de pensão que existe onde os proprietários moram no
local e alugam os quartos.
Passado um par de
horas Dina me informou que teria de ir pois teria de levar o carro
ao seu marido, e que falaríamos no decorrer da semana, mas que ali
era o “point” de encontro de todos. Quando ela partiu
fiquei conversando com a Ciça com o André e com o Alemão, A Norma e
a Carlinda já haviam ido para o trabalho, na Espanha eles tem a
famosa sesta e o horário de trabalho da tarde é a partir das 16:00,
ficando o comercio fechado até esse
horário.
Ao final da nossa
reunião na praça já no entardecer, a primeira de muitas, parti
sozinho em busca do hostal e já no primeiro que entrei fiquei, não
correria o risco de vagar pela noite sem conhecer nada atras de
melhores preços, era um quarto pequeno sem banheiro, a opção
“con baño” era mais cara. Nem bem tirei as
roupas e desabei como uma pedra. Acordei no meio da noite e não
consegui mais dormir, era o fuso horário o culpado, depois descobri
isso. A cada instante havia uma nova
descoberta.
Aproveitei então
para abrir a minha mala tirar minhas coisas e acomodar no pequeno
armário de canto que devia ter uns cem anos. Ao abrir minha bagagem
comecei a encontrar bilhetes que haviam sido colocados misturados
com minhas roupas, te amo, te adoro, te cuida, te adoramos, volte
logo, e não contive um choro compulsivo. Óbvio que eu trazia na
mala fotos pessoais como amuletos meus, em especial estava uma que
tenho em sala de aula em que aparece atrás de mim a Cristina
Rigo, uma colega que eu adorava na infância e que faleceu há muito
tempo, muitas vezes nos momentos difíceis conversava com ela na
foto, coisas que faziamos quando eramos coleguinhas, ela virou uma
espécie de anjo que me acompanha dentro do coraçao. Chorei tanto
que me assustei ao ver-me no pequeno espelho oval que havia
embutido na porta do roupeiro.
Bem vindo a
realidade falei para mim mesmo, não era isso que tu queria? Agora
tens! Mas eu ainda não sabia direito o que eu tinha e o que eu não
tinha, o que havia deixado para trás eu sabia muito bem, e o que
estava pro vir era uma incógnita, uma caixa mágica de
surpresas.
Amanhecia o dia em
Madrid e sai logo eufórico pela manhã a caminhar pela pequena calle
Magdalena que também dava nome ao meu hostal que ficava no número
26 do lado esquerdo da rua, superstições a parte meu quarto era o
número 02, mesmo número do meu apartamento em Porto Alegre que
também ficava do lado esquerdo da rua Luis Afonso na cidade
baixa.
No hostal havia um
saguão em comum para os hospedes moradores onde havia uma lareira
em azulejos pretos e o piso era com mosaicos escuros enfeitados de
quatro em quatro pedras por pequenos losangulos amarelos. Deviam
ser bem antigos, pois alguns estavam até um pouco desgastados no
meio. Assim como as escadas do prédio do hostal que mesmo em
madeira nobre tinham seus degraus desgastados pelo tempo
denunciando por onde era o fluxo das pessoas que por ali subiam e
desciam sabe lá há quantos
anos.
Do lado esquerdo do
saguão havia uma pequena sala com uma placa no topo dizendo
“Desayuno” que é café da manhã em espanhol. É claro que
era opcional e lógico que isto não estava nas minhas opções de
hospede. Paguei adiantada a primeira semana somente para ter o
direito de pernoitar, contei os dólares que me restavam e que
inclusive nem eram todos meus, alguns, para não dizer a maioria do
montante, eu os teria de mandar de volta para aquela amiga que me
emprestara o dinheiro para eu apresentar na aduana espanhola caso
me pedissem, na rápida conta que fiz eu ainda tinha dinheiro
suficiente para permanecer um mês, claro se sem gastos extras,
apenas para pernoitar e fazer uma refeição por
dia.
Caminhei rumo a
Plaza maior que ficava a poucas quadras dali, era cedo para
encontrar os amigos recentes, pois todos trabalhavam na noite e
certamente dormiriam toda a manhã. O André trabalhava de garçom em
um restaurante, o Alemão em uma transportadora, a propósito fui um
dia com ele ver o serviço e dei um tremendo azar era uma carga de
poltronas de dentista e acabei tendo de ajudá-lo, a Ciça era uma
artista como eu, ela estava dançando com um grupo baiano que fazia
pequenos shows no cine Callao, um espetáculo com mulatas
lindíssimas, carnaval e samba ,e ,que eu ainda não tivera a
oportunidade de assisti-lo, mas tenho certeza que ia preferir à
mudanças de poltronas de dentistas.
A Norma e a Carlinda
deveriam estar na embaixada brasileira onde eram funcionárias de
carreira. E assim cheguei de manhã na Plaza maior , fui
direto ao “El Corregidor” do também recente amigo
Daniel, que me recebeu muito bem e ainda me ofereceu um bocadillo
de calamares, um tipo de sanduíche bem popular que eles comem muito
lá. Em nenhum regime alimentar que eu lembre ter feito no Brasil eu
tivera tanta paciência para mastigar um alimento como saboreei
aquele sanduíche, mordida após mordida calmamente e quase cinqüenta
mastigadas a cada pedaço. Eu sabia que qualquer comida de agora em
diante teria de pagar e ainda não tinha emprego, precisava fazer
durar ao máximo meus míseros
dólares.
O dia já fervia as
dez da manhã quando tive a primeira surpresa na Europa, em uma mesa
a poucos metros da minha estava chegando o ator americano Eddie
Murphy, fiquei cristalizado vendo em carne e osso a poucos metros
de mim alguém que eu conhecera nas telas de cinema, me controlei
para não tietá-lo e pedir-lhe um autografo, ainda não estávamos na
geração das máquinas digitais e não era muito comum da época alguém
,salvo se fosse um turista japonês, andar com maquinas fotográficas
a tiracolo, senão certamente eu pediria para tirar uma foto com
ele.
Pouco mais de
meio-dia chegaram André, Alemão e Ciça e sentamos na barra do bar
que é como eles chamam o balcão lá, ali na barra a mesma bebida ou
alimento é mais barato que na mesa. Tratei logo de aprender isso.
Naquela noite eu havia combinado de sair com a Norma para tentar
conseguir um barzinho para tocar, mas eu tinha um problema, não
tinha um violão, deveria contar com a sorte de encontrar algum bar
que além de querer um cantor tivesse um violão da casa. Liguei para
Dina que também não resolveu esse meu problema. A Norma apareceu à
tardinha e então quis resolver a minha situação do violão, comprou
um Ovation para mim e eu poderia pagá-la de acordo com as granas
que fossem entrando dos shows que eu ainda nem tinha
conseguido.
Nossa estratégia era
a de pedir para dar uma canja nos bares com música ao vivo e depois
pedir um dia para tocar na casa, caso agradasse, evidente, como era
verão e a maioria dos músicos estavam no litoral trabalhando havia
essa possibilidade.
De cara o primeiro
bar que fomos a poucos metros da Plaza Maior, pela saída sul da
praça, que dava pra o bairro
Madrid de los Áustrias, o bar ficava
especificamente na calle Segovia nº 17 ,entramos, era um
dos tradicionais bares com três salas de música ao vivo, “El
Rincón Del Arte Nuevo”, mal sabia eu naquele instante que ali
naquela taberna por longas noites eu iria passar meus melhores
momentos em Madrid, medos, prazeres paixões e muita
festa.
O Juan era o
proprietário e falava um espanhol muito difícil de entender, depois
descobri que os andaluzes falam assim, sotaque pesado e muito
rápido. E também descobri que o Ovation que a Norma comprou era
dele, e de certa forma ele estava ali também para me ouvir cantar e
quem sabe me contratar. A Norma tinha armado tudo num emaranhado
muito bem arquitetado, agradei de cara, lembro que toquei
nesta noite Sampa, Aquarela do Brasil, Dia de Domingo, Sonho Meu,
Mulher Brasileira, entre outras, foi sucesso total, a Norma
enlouqueceu e já se dizia nas poucas mesas daquela taberna
ser minha empresaria. O estranho é que quando acabei de tocar o
público todo levantou e foi de embora, fiquei
pensando:
- O que foi que eu
fiz? depois vim a descobrir que era um costume normal deles,
assistem a um artista depois migram para outra sala, enquanto
começam a chegar naquela sala novos espectadores, é um rodízio de
público bem interessante, e é claro tive que cantar para o público
novo também. Eu estava na chuva e devia me
molhar.
Nossa! Gostaram do
meu trabalho, da minha voz. Será que vai ser tudo fácil assim? E
por noites e noites eu cantei ali na sala “B” do bar,
os artistas das outras salas todos vieram me conhecer e ver quem
era o brasileiro que estava agradando muito, e assim fiz os
primeiros amigos espanhóis, o Eduardo Marti que era um excelente
compositor galego, o Luiz que era cantor e que fazia dupla com
Javier, o Paco Segura que era um tenor muito prestigiado na cidade,
o Leon Canales que era um humorista que fazia um talk-show
maravilhoso, ateu e sempre com alguma piada malhando o Papa e o
papa-móvel adotado após 1981 pelo Vaticano quando o santo
padre sofrera o atentado, dizia ele: O papa ao usar um
papa-movel a prova de balas é como se não confiasse em
Deus? Enfim muitos outros amigos que no final de noite
acabavam ali no “Rincón” , eu não tinha pressa nenhuma
de voltar pro meu hostal, fechava o bar com os
garçons.
Fui contratado pelo
Juan, e agora eu já tinha salário, era de quatro mil pesetas por
apresentação e eu fazia duas performances por noite e tocava duas
vezes por semana, terças e quintas, apesar de freqüentar o Rincón
todas as noites. Para se ter uma idéia uma apresentação pagava uma
semana de Hostal e eu tinha oito apresentações semanais. Paguei o
violão para Norma, ou pro Juan, ainda no primeiro
mês.
Na frente do Rincón
tinha um quadro negro anunciando a giz os espetáculos, e no meu
dizia: “Música de Brasil con Chico Saratt” Nossa!
Música de Brasil pesou, mas era difícil explicar a eles que Porto
Alegre era no Rio Grande do Sul que era um estado longe do Rio de
Janeiro, que cultuava mais a música gaúcha argentina do que a
brasileira e que eu era mais músico regional do meu estado do que
músico brasileiro. Mas enfim eu estava agradando e isso é que era
importante e eu me virava com muitos sambas
também.
E assim como eu
cheguei na Europa para ficar, muitos chegavam todos os dias, cada
dia novos imigrantes, músicos, artistas, estudantes, aventureiros
entre outros. E numa dessas noites do Rincón chegou um grupo de
músicos de Florianópolis que eram de uma banda que se chamava Tok
& Cor, ficamos amigos de cara pois tínhamos alguns amigos em
comum apesar de nunca termos um ouvido falar do outro. Fiquei logo
amigo do Vinícius Lisboa que era o guitarrista e do Marcio que era
o baixista. E diferente de mim eles foram com algum dinheiro do
Brasil e estavam bem mais tranqüilos do que a minha situação quando
eu cheguei em Madrid.
O Vinicius então
começou a dar canja comigo, tocava muito bem guitarra e fazia
alguns vocais, o Marcio tocava contrabaixo, nos apertávamos os três
no minúsculo palco do bar em um dos cantos de teto arredondado em
forma de caverna, que tinha como cenário um leque vermelho imenso
no fundo, e aos poucos a brasileirada foi tomando conta da sala B,
brasileiro que chegasse em Madrid era certo que dava uma passada
por lá. Até que um dia o Vinicius me procurou avisando que o cantor
da Tok & Cor havia decidido ir embora para o Brasil e me
convidou para ser o cantor da banda, mas eu já estava colocado no
mercado para que iria querer assumir de cantor em uma banda que
sequer tinha trabalho ou agenda na
cidade.
Mas a Norma que se
intitulava minha empresária então comentou que com uma banda
poderíamos sonhar mais alto do que uma taberna e de repente
conseguiríamos shows em clubes ou em casas maiores e que por
conseqüência pagavam mais, então topei o
desafio.
“Café Del
foro” foi a primeira casa grande que conseguimos show, foi
sucesso total, e casa cheia. Me incomodava um pouco de ter de
trabalhar com o nome da banda e não com o meu, afinal eu sempre
tinha usado meu nome mesmo no Brasil e já tinha alguns fãs
Madrileños, então negociei com os meninos para ser anunciado Chico
Saratt e banda Tok & Cor, tudo certo quando se tem trabalho
tudo fica mais fácil.
E neste café
conhecemos juntos a Márcia e o Pedro, um casal de baianos de
Salvador, com quem eu viajaria um mês depois acompanhado de uma
amiga colorida para a Galícia para conhecer a “Playa de Las
Catedrales” que ficava na província de Lugo que era banhada
pelo mar cantábrico, fascinante, patrimônio da
humanidade.
A Márcia era
tecladista e era irmã de um músico bem conhecido na cidade e que já
vivia há tempos em Madrid, o “Tarzan”. E ali também no
“Café del Foro” conheci um cantor argentino chamado
Raúl Porchetto autor de uma canção famosa na argentina sobre a
guerra das Malvinas, a canção foi feita a partir de uma carta
achada no bolso de um soldado inglês endereçada para sua mãe, carta
essa que nunca chegou ao destino final, e que fora usada pela
imprensa argentina na ocasião pra mostrar ao mundo a
incerteza dos soldados ingleses sobre a propriedade inglesa
das “Falkland Islands”. Enfim! Essa carta que nunca
chegou as mãos de sua mãe virou uma bela canção que muitas vezes me
emocionei e emocionei pessoas ao cantá-la nos palcos da
Espanha.
Pero madre los
que esta pasando aca, son igual a mi y aman este lugar, tan lejos
de casa qui ni el nombre me acuerdo, porque estoy lutando, porque
estoy matando. Reina Madre! linda canção! quem quiser
ouvir a canção eis abaixo o link, copie e coloque na barra de
endereços e dedique quatro minutos, vale a
pena!
http://www.youtube.com/watch?v=V5eH54EPpcQ