QUANDO EU FUI EMBORA - CHICO SARATT

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                                             INTRODUÇÃO


Este livro traz a história de quando eu larguei tudo e todos no Brasil pra ir morar na Europa. Na época com uma carreira de música estabilizada e com um trabalho bem difundido no Rio Grande do sul através dos festivais nativistas.

Eu que havia me dedicado a campanha presidencial de Leonel  de Moura Brizola em 1989, que acabou perdendo a eleição para Fernando Collor de Mello, lembro que neste dia após a derrota do caudilho prometi a mim mesmo que não iria viver no Brasil enquanto Collor de Mello fosse o presidente da república, ânsias da juventude e ideologias politicas em formação de um artista que nem bem sabia o que queria, mas que sabia muito bem o que não queria!


O Brasil passava por uma tremenda reviravolta na entrada da década de 90. Após quase três décadas, finalmente um presidente civil seria escolhido pelo povo. A inflação acumulada passava de 400%.

Era uma verdadeira gincana sobreviver, na minha área a música ,havia a crise do acetato, matéria prima para a fabricação dos LP’S, e os artistas com maior tiragem tinham privilégio na fabricação de seus discos.

Com isso surgia o monopólio de algumas gravadoras que exigiam de lojistas a compra casada de discos, por exemplo, para cada LP do Roberto Carlos vendido era linkada a venda do disco de dez artistas ou mais do mesmo selo e assim era o mercado.

Quem não pertencesse a um selo onde no catálogo de artistas  tivesse um peixe grande para alavancar a venda dos demais estava fadado a insignificância e a fila de espera nas fábricas.

Baseado em tudo isso e na minha história pessoal de vida mesmo resolvi sem titubear tomar o rumo do exterior, havia uma máxima do Tom Jobim nesta época ironizando a situação que atravessavamos, quando fora perguntado por um repórter  de qual seria a saída para o Brasil?

E ele respondeu:


- À saída para o Brasil é o aeroporto Galeão!


Pronto aí estava um conselho que eu iria seguir. Espero que vocês gostem das histórias, são todas verídicas e não cito alguns nomes por não ter a autorização pelo simples fato de não ter mais o contato dessas pessoas, com alguns ainda consegui a exemplo da artista plástica Cristina Oiticica, esposa do mago Paulo Coelho e com quem estive em Madrid nesta época.


A idéia de escrever o livro surgiu quando um dia tentei lembrar de uma canção que havia composto em Madrid e não consegui lembrá-la por inteiro, passei dias tentando e nada.


Preocupei-me com  a possibilidade de esquecer também de tudo o que passei no velho mundo neste período quando eu aventurava-me a morar qual nomade de país em país cantando e recomeçando a vida do zero a cada nova fronteira conquistada.

Como iria no futuro contar para o meu filho das minhas andanças?

Então resolvi escrever.


A década de 90 estava a pleno vapor e iria ser talvez a mais marcantes de todas, começou com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, sendo esses seguidos pelo advento da democracia, globalização e capitalismo global. Fatos marcantes como a Guerra do Golfo e a popularização do computador pessoal e da Internet.


Muitos acontecimentos importantes marcavam o mundo e a Europa a cada dia, O Tratado de Maastricht, também conhecido como Tratado da União Européia que seria o embrião da atual União européia trazia em seus ideais a idéia de uma moeda única, de metas de livre movimento de produtos, pessoas, serviços e capital visando a estabilidade política do continente europeu.


A queda do Muro de Berlim depois de 28 anos de existência. A unificação das Alemanhas, grandes manifestações em que, entre outras coisas, se pedia a liberdade de viajar.

No Brasil surgia o primeiro aparelho celular na cidade do Rio de Janeiro.
Nos Estados Unidos a Nasa colocava em órbita o telescópio espacial Hubble revolucionando a astronomia e trazendo imagens nunca antes vistas do universo.

Alimentos geneticamente modificados surgiam com desenvolvimento comercial, não mais apenas como experienciais.


Enfim! Uma década e tanto, marcante e de acontecimentos marcantes, enquanto eu um viajante solitário andava em busca de mim mesmo, atravessando fronteiras sem a mínima preocupação de ser ou estar, apenas queria ver,
viajar e viver!


CHICO SARATT
Contatos com o Autor:
chicosaratt@hotmail.com



 
Índice
    INTRODUÇÃO
 1- A VIAGEM PARA A ESPANHA
 2 - A PLAZA MAIOR E EL CORREGIDOR
 3 - EL SOTANO
 4 - A CHEGADA NA SUIÇA
 5 - A MORTE DE ALAN
 6 - A NOVA VIDA EM MONTREUX
 7 - A GUERRA DO GOLFO
 8 - CHEGANDO EM PORTUGAL
 9 - O APARTH HOTEL ROSAMAR
10- A ALDEIA DE PESCADORES CHAMADA  PERA
11- A VIDA SOLITÁRIA NO TIROL
12- O RETORNO A PORTUGAL
 

segunda 29 junho 2009 18:37


O PRIMEIRO PASSAPORTE

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terça 30 junho 2009 02:15


Em frente ao Palácio Real (Madrid)

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CAPÍTULO 1

"A VIAGEM PARA A ESPANHA"

Porto Alegre cinco de Julho de 1990, enquanto nas bancas os jornais ainda destacam como foi o dia da independência americana nos Estados Unidos, a tarde fria da terça-feira cinzenta fixa em  meus olhos cada casa, cada esquina que deixo para trás no trajeto que vai da cidade baixa ao aeroporto Salgado filho. Me incomoda um gosto amargo na boca, um aperto no peito e uma ânsia de ir embora para algum lugar desconhecido. O bilhete no bolso da calça tem como destino aeroporto de Barajas em Madrid, mas eu nem sei bem o que estou indo fazer lá. Tudo o que eu tenho é o telefone de uma cantora carioca chamada Dina Flores que morou com uma médica amiga de minha tia lá e que me deu seu contato.

É uma separação interna, deixo para trás a família, a namorada com quem eu recentemente reatara após dois meses de afastamento, os  amigos, o emprego, os botecos onde ganho a vida, meu violão, companheiro de todas as horas,  o trabalho de divulgação de meu primeiro e tão sonhado LP que fora recentemente gravado, mas sinto que deixo em meio a tudo a esperança de um dia voltar.

Depois de algum tempo, percebi que nas canções gravadas em meu LP havia muito do que estava vivendo naquele momento. Através da música eu tinha colocado para fora tudo o que não conseguia falar.

Não eu não estou indo pro exílio, tenho apenas 25 anos, não entendo de política e até já não temos esse problema no Brasil, a ditadura militar acabou há alguns anos, eu poderia sim definir como um auto-exílio  motivado muito mais por inquietações da minha alma do que por qualquer outra coisa. Um conflito interno meu onde a razão de estar partindo certamente não sobreviverá na minha volta.

No meu passaporte ainda permanece o carimbo do consulado americano negando o visto de turista, evidente que na entrevista com o cônsul escorreguei na mentira e deixei que ele descobrisse que eu estava indo para ficar por lá,  com essa negativa mudei meus planos para o velho mundo e talvez tenha escolhido a Espanha por acreditar que seria mais fácil a adaptação ao idioma, ledo engano.

Desde a primeira vez que me passou pela cabeça a idéia de partir eu  já estava com o coração a distância, a razão já havia padecido, não havia mais como abortar a missão. Eu não tinha mais esse controle. E após uma rápida despedida de todos, que não eram muitos, no aeroporto Salgado Filho me vou. Lembro ainda hoje o ruído daquela porta vai-vem de duas faces pela qual eu deixava tudo e todos para trás ao transpô-la bem no meio sem me voltar para a última espiada.  Em um Boeing 707 da Varig decolo rumo a São Paulo de onde algumas horas mais tarde eu estaria embarcando rumo à Madrid. Com a noite já encobrindo a garoa paulista vejo pela minúscula janela do assento 12-A um imenso espectro de luzes que pela primeira vez em minha vida brilham nos meus olhos e iluminam meu solitário pensamento que continua a imaginar como será a Espanha.

Adormeço escutando “Crocodilo Rock” do Elton John nos fones do avião que são menos confortáveis que os convencionais do meu walkman e machucam um pouco o meu ouvido. De repente alguns solavancos me acordam, olho o relógio e ainda são 03:40 da madrugada, ouço um zum zum zum de vozes e percebo que há um grupo de pessoas bem ao fundo da  aeronave bebendo e resolvo ir para lá também. Afinal esse horário para mim era o normal eu estar acordado em algum bar bebendo ou cantando.

Aproximo-me do grupo do fundo do avião e descubro entre as conversas travadas com aquelas pessoas até então desconhecidas para mim que todos estão indo para a Europa com dia certo para retornar ao Brasil, e em menos de um mês. Eu não!  Não quero nem pensar nisso, com esses assuntos me volta a cabeça a pergunta, o que eu estou fazendo dentro desse avião indo para longe de tudo e de todos? O que estou buscando? Não sei!

Bebo uma dose de Cutty Sark, faço amizade com um espanhol de Burgos que mora em São Paulo e que esta indo visitar seus familiares, já fico imaginando quando eu poderia fazer o mesmo?

As horas custam a passar, retorno ao meu assento e vou o resto do vôo numa luta contra o sono até ser surpreendido por um aplauso que brota no momento em que sinto o baque do avião tocando o solo europeu, começo a aplaudir também mesmo sem saber o porquê, depois descobri que era de praxe nos vôos internacionais os passageiros aplaudirem o pouso. Para mim era estranho, pois minha relação com o aplauso tinha a ver com palco e com música, mas, de certa forma imagino que a pista de pouso é o palco do piloto e o avião o seu instrumento.

Tem uma menina que puxou papo comigo na saída de Porto Alegre já dentro do avião e que eu não havia percebido que ela também estava no vôo de São Paulo para Madrid, como não mais a vi  pensei que ela havia ficado na conexão entre o vôo domestico e o embarque Internacional.  o que não aconteceu. E na fila para pegar as malas já em Madrid fui abordado por ela novamente, ela era simpática, mas um pouco desleixada no vestir e eu sabia que a aduana espanhola estava mandando gente embora, muitas vezes no mesmo vôo, principalmente sul-americanos que vinham tentar a sorte no primeiro mundo, teve até um amigo meu de São Borja que passou por esse constrangimento a poucos mêses e isso não me saia da cabeça, imaginem todo o investimento que fiz emocional e financeiro ficar bloqueado numa aduana por causa de uma outra pessoa. Se eu ficar que seja por mim.

Recolhi minha mala na esteira ainda na companhia da menina que mostrava um interesse em permanecer junto a mim e começo a me preocupar com a presença dela a meu lado, isso poderia prejudicar meu êxito na entrada da aduana, uma vez que eu estava dentro de uma bela camisa de seda e num terno de lã que minha avó fez especialmente para esta ocasião, e com essa pinta toda tentaria passar pela imigração como um turista normal que tem dinheiro para fazer uma viagem dessas por ano, apesar de na carteira só ter novecentos dólares que arranjei emprestado com uma amiga no Brasil para apresentar caso me pedissem para comprovar que eu tinha condições de ficar, praxe deles.

Nem ouço meus passos de nervoso com o risco que corro, já perto da aduana interna do aeroporto Barajas onde passaríamos por um corredor estreito a esquerda, rodeado de policiais,  que uma vez  transposto, diplomaticamente eu estaria na Espanha, aproveitei a fila imensa que se aglomerava nos metros finais e dei um jeito de lhe falar  que eu havia esquecido de uma mala e teria de voltar para pega-la na esteira, mas que a gente se falava na saída do aeroporto. Evidente que era uma mentira deslavada minha para evitar entrar junto com ela. E não deu outra, meu instinto sagitariano estava correto, quando pela segunda vez alguns minutos mais tarde cheguei na entrada do corredor da aduana, já à vi sendo interrogada pela polícia, certamente eu estaria junto ali se não tivesse feito o que fiz, e como após meu exitoso ingresso em solo estrangeiro tardei um pouco para sair das dependências do aeroporto e não mais à vi conclui que a mandaram  de volta ao Brasil.

Passei reto pelos federais espanhóis com o coração gelado e as mãos, tremulas e suadas, uma delas dentro do bolso do casaco de lã o qual já começava a me dar um certo desconforto que eu não sabia o porque e que só fui perceber ao reparar num painel digital que havia em frente ao aeroporto Barajas que a temperatura local era de 42 graus Celsius e que no horário local já passa do meio-dia.

O que fazer agora? Não tenho nada a não ser a realidade de estar só num país estranho e nem tenho para onde ir, resolvo sentar e pensar um pouco para organizar os fluxos de adrenalina que me deixavam inquieto. Ao sentar percebo que há um correio em uma das lojinhas do aeroporto, uma tabacaria, e então resolvo mandar um postal para casa. Passo pelos primeiros problemas da língua, apesar de eu ser de uma cidade que faz fronteira com a Argentina não sabia falar o espanhol, e muito menos sabia como pedir um selo. Mas tinha de ir à luta. Troquei uma nota de cem dólares num câmbio que havia e me encaminhei a tabacaria que tinha de tudo um pouco,  inclusive alguns postais da cidade numa estante redonda que rodava automaticamente bem devagar. Não recordo das palavras que escrevi no postal, mas lembro do aperto no peito naquele momento.

Amenidades que foram tornando-se a minha realidade aos poucos e quando eu menos esperava já estava dentro de um ônibus a caminho da Plaza Cólon em Madrid, o aeroporto era afastado do centro da cidade e eu não poderia ir a pé, minha vontade era a de economizar ao máximo, mas não poderia ir com uma mala por tantos quilômetros.  No ônibus eu já observava minha primeira cédula de peseta espanhola, que eles rotineiramente chamavam de “Pêlas”, era diferente, mas bonita a nota. E naqueles quarenta e poucos minutos de transito eu também observava cada outdoor que havia na beira da estrada.  

Ao descer na Plaza Cólon observo uma imensa cascata d’água que caia de uma das laterais da praça, vejo que as pessoas passam por debaixo da cascata e descem uma pequena escada de mármore preto rumo a um sub-solo aberto, faço o mesmo, e ali embaixo me deparo com um corredor que circundava a praça pelo andar inferior e que em seu curso oferecia a entrada para um restaurante e ao lado a entrada para o teatro, Fernan Gomez ambos ficavam abaixo da plataforma de onde caia a cascata artificial , na parede um cartaz imenso do chão ao teto anunciando que no mês de julho o espetáculo ali era a Ópera Carmem. Foi a minha primeira percepção de estar com os pés em um mundo culturalmente mais avançado que o meu.

Imaginem que numa praça nem tão central ou em um teatro nem tão importante assim estava em cartaz a Ópera Carmem? E assim vou me envolvendo aos poucos com Madrid e com suas "anchas" avenidas e muitas coisas novas para minha cabeça, meus pés doem um pouco afinal já estou há muitas horas sem tirar os sapatos. Nem quero imaginar o cheiro, mas eu não tenho escolha tenho de seguir e começo a caminhar pela avenida chamada “Paseo de La Castellana”, ainda na calçada a poucos metros a esquerda já estou na frente da Biblioteca Municipal, lindo o prédio, suas portas altas e arredondadas em cima me fazem lembrar a catedral de São Borja, minha cidade natal. Sigo sem rumo ainda e chego a uma rotula com uma escultura lindíssima no centro, uma carruagem estranha, carregando uma mulher, puxada por dois bravos leões, a escultura parecia em movimento ao ser era banhada por uma fonte de água, depois fui descobrir que tratava-se da famosa “Fuente de las Cibeles”, também chamada de Plaza de lãs Cibeles e que tinha como pano de fundo o prédio dos correios que era também uma obra de arte e que em muito pouco tempo eu iria freqüentá-lo assiduamente e deixaria de lado o espanto que me enchia os olhos naquele momento mágico.

Bem eu estou em Madrid e até já tenho o dinheiro local no bolso, começo a perceber que era preciso ao invés de observar começar a agir antes que o entardecer e a noite caíssem e eu não tivesse onde dormir. Lembrei que tinha na carteira o telefone da cantora Dina Flores com quem eu vinha com a intenção de trabalhar. Os telefones públicos aceitavam moedas e bastou alguns minutos para eu conseguir ligar para Dina.

- Hola! 

Diz uma voz masculina ao telefone. Perguntei em português se era da casa da Dina Flores, e ouço a mesma voz sem me responder gritar:

 – Dina! És para vos!  

Em poucos segundos estou falando com a Dina que me disse que estava sem fazer shows naquele periodo e assim permaneceria até terminar seu LP que estava gravando. Passei mal outra vez, pois esperava já chegar trabalhando com música, apesar de nem ter trazido o violão por medo de não passar na aduana, aquele chega para lá dela me trouxe um pouco de apreensão no momento e acho que não consegui disfarçar, perguntei se ela não estava sabendo que eu viria.

Deixei passar um pouco meu pânico no telefone e ela ao perceber  isso foi aos poucos foi me acalmando e me dando as coordenadas de como eu faria para encontrá-la. Perguntou-me se eu tinha dinheiro e com minha confirmação ela me pediu que anota-se seu endereço e entrasse no primeiro taxi para ir a seu encontro. Eu devo ter acenado para uns oito deles, sem que nenhum  parasse, até que percebi que alguns mesmo de dia tinham uma luz vermelha forte acesa no pára-brisa pelo lado de dentro e  obvio,  eu deveria esperar e acenar somente para algum com uma luz verde  no lugar da vermelha, que seriam os livres, pronto. Logo eu já estava dentro de um a caminho da casa da Dina. Com uma tranqüilidade dosada a conta gotas.

No vidro lateral traseiro do taxi atrás do motorista eu tentava arrumar meus cabelos que já não tinham maneira de ficar apresentáveis. Cheguei! Um calor do cão e nenhuma brisa na capital das touradas, e eu de casaco de lã! Desço e me encaminho para a porta do prédio, imediatamente ao toque no interfone já sou atendido pela Dina mesmo, que diz:

- Chicão sobe! Entra no apartamento oito e me espera!

E o espanhol que atendeu-me ao telefone, onde estaria? Deve ter saído. enquanto eu vinha para cá. Mas, na dúvida do que estaria acontecendo subi logo, encontrei a porta de número oito entreaberta e fui entrando, era uma sala imensa com um piano de cauda preto ao fundo, umas garrafas de cerveja ao pé do piano e um cheiro forte de cigarro no ar, depois eu viria a descobrir que aquele era um cheiro bem popular de lá, de um cigarro chamado Ducados muitíssimo fumado pelos espanhois, sentei em um pequeno sofá tipo namoradeira, na ante sala e dali ouvia o barulho de um chuveiro aberto, imediatamente ouço meu nome na voz de Dina em meio ao ruido da água do chuveiro.

- Chicão!  Entrou? Fecha a porta!  

- Sim! Respondi forte e aguardei.

Em instantes estou na frente de Dina Flores ainda envolta em uma toalha branca imensa, havia saído direto do banho para me receber, muito carinhosa e sorridente comigo. Falou-me que a amiga da minha tia, a Marisa havia sim ligado avisando que eu iria, mas que ela não esperava que eu fosse tão de imediato, pois no verão todos em Madrid migram para o litoral e os trabalhos com música ao vivo também, restando poucos bares e opções na cidade para se buscar trabalho com música.

Em meio ao assunto ela me disse:

- Nossa! Você esta horrível! Anda, tira essa roupa e entra num banho. As coisas começavam a melhorar, um banho era tudo o que queria no momento. Mas meu instinto masculino fica por um momento tenso. Primeiro ela sai do banho de toalha, depois me manda tirar a roupa e ir para o banho? Logo percebo que aquilo era normal e não tinha nada de mais ela me mandar tirar a roupa e entrar para o banho.

Saio do banho e já sou recebido com uma cerveja na sala, as coisas começavam a melhorar, bebo direto na pequena garrafa de nome “Sagres” tomo quase que de um gole só, começo a observar melhor tudo ao redor, inclusive ela e percebo que a Dina era pequenina e que ao falar tinha um sotaque carregadissimo que só os cariocas tem.

Saímos para um pequeno mercado onde ela iria fazer umas compras, eu estava cansadíssimo e com um prícipio de fome, mas a excitação do desconhecido era tanta que não sei de onde ainda tirava forças para caminhar naquele calor.

Percebo Dina me olhando muito e sempre muito carinhosa comigo, me passa a mão nos cabelos, me pega pela mão, me elogia e aos poucos vou ficando mais a vontade com esse jeito diferente de ser dela.  Fomos de volta ao seu apartamento e lá encontro o primeiro obstáculo até aquele momento, a cara fechada do espanhol com quem ela era casada, e eu nem sabia!  Ah foi ele que atendeu o telefone quando liguei. Não que os espanhóis sejam simpáticos, mas olhar de marido ciumento  mesmo na juventude de meus vinte e cinco anos eu já sabia perceber. E ela diz a ele:

- Esse é o Chico meu amigo do Brasil!

Ele sequer disse Hola! Mas imediatamente ela pegou as chaves do carro  não dando muita importancia para ele e fomos para a Plaza Maior, ela queria me apresentar a classe artística da noite que quando acorda, sempre a tarde, todos vão para a Plaza Maior beber e se encontrar. foi meu primeiro aprendizado sobre a noite Madrileña e uma rotina que eu repetiria muito no decorrer dos mêses seguintes.

 

quarta 01 julho 2009 11:55


Minha primeira foto na "Plaza Maior", recém chegando a Madrid

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CAPÍTULO 2

“EL CORREGIDOR”

Chegamos a um bar numa das esquinas internas da Plaza Maior, “El Corregidor” diz na madeira esculpida e pendurada na parede direita da porta de entrada do bar, que é de um espanhol filho de brasileiro com espanhola, o Daniel.  Fui muito bem recebido por ele e por todos ali, conheci nesta tarde a Norma, o André, o Alemão, a Ciça e a Carlinda, todos brasileiros e todos amigos da Dina.

A Norma e a Carlinda eram funcionárias da embaixada brasileira em Madrid, o André e o Alemão eram paulistas de campinas e a Ciça era uma baiana linda de Camaçari, com seus cabelos no maior estilo Caetano Veloso, sorriso alvo estampado no rosto e olhos chapados, havia recém chegado do Brasil também, tinha uma semana e meia a mais que eu. Pronto eu já estava enturmado.

Bom! Eu ainda tinha que buscar onde hospedar-me percebi que na casa da Dina não ia rolar, e ali era o momento de pedir conselhos de onde ficar, e pela primeira vez ouvi alguém falar a palavra “Hostal” que é uma espécie de pensão que existe onde os proprietários moram no local e alugam os quartos.

Passado um par de horas Dina me informou que teria de ir pois teria de levar o carro ao seu marido, e que falaríamos no decorrer da semana, mas que ali era o “point” de encontro de todos. Quando ela partiu fiquei conversando com a Ciça com o André e com o Alemão, A Norma e a Carlinda já haviam ido para o trabalho, na Espanha eles tem a famosa sesta e o horário de trabalho da tarde é a partir das 16:00, ficando o comercio fechado até esse horário.

Ao final da nossa reunião na praça já no entardecer, a primeira de muitas, parti sozinho em busca do hostal e já no primeiro que entrei fiquei, não correria o risco de vagar pela noite sem conhecer nada atras de melhores preços, era um quarto pequeno sem banheiro, a opção “con baño” era mais cara.   Nem bem tirei as roupas e desabei como uma pedra. Acordei no meio da noite e não consegui mais dormir, era o fuso horário o culpado, depois descobri isso. A cada instante havia uma nova descoberta.

Aproveitei então para abrir a minha mala tirar minhas coisas e acomodar no pequeno armário de canto que devia ter uns cem anos. Ao abrir minha bagagem comecei a encontrar bilhetes que haviam sido colocados misturados com minhas roupas, te amo, te adoro, te cuida, te adoramos, volte logo, e não contive um choro compulsivo. Óbvio que eu trazia na mala fotos pessoais como amuletos meus, em especial estava uma que tenho  em sala de aula em que aparece atrás de mim a Cristina Rigo, uma colega que eu adorava na infância e que faleceu há muito tempo, muitas vezes nos momentos difíceis conversava com ela na foto, coisas que faziamos quando eramos coleguinhas, ela virou uma espécie de anjo que me acompanha dentro do coraçao. Chorei tanto que me assustei ao ver-me no pequeno espelho oval que havia embutido na porta do roupeiro.

Bem vindo a realidade falei para mim mesmo, não era isso que tu queria? Agora tens! Mas eu ainda não sabia direito o que eu tinha e o que eu não tinha, o que havia deixado para trás eu sabia muito bem, e o que estava pro vir era uma incógnita, uma caixa mágica de surpresas.

Amanhecia o dia em Madrid e sai logo eufórico pela manhã a caminhar pela pequena calle Magdalena que também dava nome ao meu hostal que ficava no número 26 do lado esquerdo da rua, superstições a parte meu quarto era o número 02, mesmo número do meu apartamento em Porto Alegre que também ficava do lado esquerdo da rua Luis Afonso na cidade baixa.

No hostal havia um saguão em comum para os hospedes moradores onde havia uma lareira em azulejos pretos e o piso era com mosaicos escuros enfeitados de quatro em quatro pedras por pequenos losangulos amarelos. Deviam ser bem antigos, pois alguns estavam até um pouco desgastados no meio. Assim como as escadas do prédio do hostal que mesmo em madeira nobre tinham seus degraus desgastados pelo tempo denunciando por onde era o fluxo das pessoas que por ali subiam e desciam  sabe lá há quantos anos.

Do lado esquerdo do saguão havia uma pequena sala com uma placa no topo dizendo “Desayuno” que é café da manhã em espanhol. É claro que era opcional e lógico que isto não estava nas minhas opções de hospede. Paguei adiantada a primeira semana somente para ter o direito de pernoitar, contei os dólares que me restavam e que inclusive nem eram todos meus, alguns, para não dizer a maioria do montante, eu os teria de mandar de volta para aquela amiga que me emprestara o dinheiro para eu apresentar na aduana espanhola caso me pedissem, na rápida conta que fiz eu ainda tinha dinheiro suficiente para permanecer um mês, claro se sem gastos extras, apenas para pernoitar e fazer uma refeição por dia.

Caminhei rumo a Plaza maior que ficava a poucas quadras dali, era cedo para encontrar os amigos recentes, pois todos trabalhavam na noite e certamente dormiriam toda a manhã. O André trabalhava de garçom em um restaurante, o Alemão em uma transportadora, a propósito fui um dia com ele ver o serviço e dei um tremendo azar era uma carga de poltronas de dentista e acabei tendo de ajudá-lo, a Ciça era uma artista como eu, ela estava dançando com um grupo baiano que fazia pequenos shows no cine Callao, um espetáculo com mulatas lindíssimas, carnaval e samba ,e ,que eu ainda não tivera a oportunidade de assisti-lo, mas tenho certeza que ia preferir à mudanças de poltronas de dentistas.

A Norma e a Carlinda deveriam estar na embaixada brasileira onde eram funcionárias de carreira.  E assim cheguei de manhã na Plaza maior , fui direto ao “El Corregidor” do também recente amigo Daniel, que me recebeu muito bem e ainda me ofereceu um bocadillo de calamares, um tipo de sanduíche bem popular que eles comem muito lá. Em nenhum regime alimentar que eu lembre ter feito no Brasil eu tivera tanta paciência para mastigar um alimento como saboreei aquele sanduíche, mordida após mordida calmamente e quase cinqüenta mastigadas a cada pedaço. Eu sabia que qualquer comida de agora em diante teria de pagar e ainda não tinha emprego, precisava fazer durar ao máximo meus míseros dólares.

O dia já fervia as dez da manhã quando tive a primeira surpresa na Europa, em uma mesa a poucos metros da minha estava chegando o ator americano Eddie Murphy, fiquei cristalizado vendo em carne e osso a poucos metros de mim alguém que eu conhecera nas telas de cinema, me controlei para não tietá-lo e pedir-lhe um autografo, ainda não estávamos na geração das máquinas digitais e não era muito comum da época alguém ,salvo se fosse um turista japonês, andar com maquinas fotográficas a tiracolo, senão certamente eu pediria para tirar uma foto com ele.

Pouco mais de meio-dia chegaram André, Alemão e Ciça e sentamos na barra do bar que é como eles chamam o balcão lá, ali na barra a mesma bebida ou alimento é mais barato que na mesa. Tratei logo de aprender isso. Naquela noite eu havia combinado de sair com a Norma para tentar conseguir um barzinho para tocar, mas eu tinha um problema, não tinha um violão, deveria contar com a sorte de encontrar algum bar que além de querer um cantor tivesse um violão da casa. Liguei para Dina que também não resolveu esse meu problema. A Norma apareceu à tardinha e então quis resolver a minha situação do violão, comprou um Ovation para mim e eu poderia pagá-la de acordo com as granas que fossem entrando dos shows que eu ainda nem tinha conseguido.

Nossa estratégia era a de pedir para dar uma canja nos bares com música ao vivo e depois pedir um dia para tocar na casa, caso agradasse, evidente, como era verão e a maioria dos músicos estavam no litoral trabalhando havia essa possibilidade.

De cara o primeiro bar que fomos a poucos metros da Plaza Maior, pela saída sul da praça, que dava pra o bairro Madrid de los Áustrias, o bar ficava especificamente na calle Segovia nº 17 ,entramos, era um dos tradicionais bares com três salas de música ao vivo, “El Rincón Del Arte Nuevo”, mal sabia eu naquele instante que ali naquela taberna por longas noites eu iria passar meus melhores momentos em Madrid, medos, prazeres paixões e muita festa.

O Juan era o proprietário e falava um espanhol muito difícil de entender, depois descobri que os andaluzes falam assim, sotaque pesado e muito rápido. E também descobri que o Ovation que a Norma comprou era dele, e de certa forma ele estava ali também para me ouvir cantar e quem sabe me contratar. A Norma tinha armado tudo num emaranhado muito bem arquitetado, agradei de cara, lembro que toquei  nesta noite Sampa, Aquarela do Brasil, Dia de Domingo, Sonho Meu, Mulher Brasileira, entre outras, foi sucesso total, a Norma enlouqueceu  e já se dizia nas poucas mesas daquela taberna ser minha empresaria. O estranho é que quando acabei de tocar o público todo levantou e foi de embora, fiquei pensando:

- O que foi que eu fiz? depois vim a descobrir que era um costume normal deles, assistem a um artista depois migram para outra sala, enquanto começam a chegar naquela sala novos espectadores, é um rodízio de público bem interessante, e é claro tive que cantar para o público novo também. Eu estava na chuva e devia me molhar.

Nossa! Gostaram do meu trabalho, da minha voz. Será que vai ser tudo fácil assim? E por noites e noites eu cantei ali na sala “B” do bar, os artistas das outras salas todos vieram me conhecer e ver quem era o brasileiro que estava agradando muito, e assim fiz os primeiros amigos espanhóis, o Eduardo Marti que era um excelente compositor galego, o Luiz que era cantor e que fazia dupla com Javier, o Paco Segura que era um tenor muito prestigiado na cidade, o Leon Canales que era um humorista que fazia um talk-show maravilhoso, ateu e sempre com alguma piada malhando o Papa e o papa-móvel adotado após 1981 pelo Vaticano  quando o santo padre sofrera o atentado, dizia ele: O papa ao usar um papa-movel  a prova de balas é como se não confiasse em Deus?  Enfim muitos outros amigos que no final de noite acabavam ali no “Rincón” , eu não tinha pressa nenhuma de voltar pro meu hostal, fechava o bar com os garçons.

Fui contratado pelo Juan, e agora eu já tinha salário, era de quatro mil pesetas por apresentação e eu fazia duas performances por noite e tocava duas vezes por semana, terças e quintas, apesar de freqüentar o Rincón todas as noites. Para se ter uma idéia uma apresentação pagava uma semana de Hostal e eu tinha oito apresentações semanais. Paguei o violão para Norma, ou pro Juan, ainda no primeiro mês.

Na frente do Rincón tinha um quadro negro anunciando a giz os espetáculos, e no meu dizia: “Música de Brasil con Chico Saratt” Nossa! Música de Brasil pesou, mas era difícil explicar a eles que Porto Alegre era no Rio Grande do Sul que era um estado longe do Rio de Janeiro, que cultuava mais a música gaúcha argentina do que a brasileira e que eu era mais músico regional do meu estado do que músico brasileiro. Mas enfim eu estava agradando e isso é que era importante e eu me virava com muitos sambas também.

E assim como eu cheguei na Europa para ficar, muitos chegavam todos os dias, cada dia novos imigrantes, músicos, artistas, estudantes, aventureiros entre outros. E numa dessas noites do Rincón chegou um grupo de músicos de Florianópolis que eram de uma banda que se chamava Tok & Cor, ficamos amigos de cara pois tínhamos alguns amigos em comum apesar de nunca termos um ouvido falar do outro. Fiquei logo amigo do Vinícius Lisboa que era o guitarrista e do Marcio que era o baixista. E diferente de mim eles foram com algum dinheiro do Brasil e estavam bem mais tranqüilos do que a minha situação quando eu cheguei em Madrid.

O Vinicius então começou a dar canja comigo, tocava muito bem guitarra e fazia alguns vocais, o Marcio tocava contrabaixo, nos apertávamos os três no minúsculo palco do bar em um dos cantos de teto arredondado em forma de caverna, que tinha como cenário um leque vermelho imenso no fundo, e aos poucos a brasileirada foi tomando conta da sala B, brasileiro que chegasse em Madrid era certo que dava uma passada por lá. Até que um dia o Vinicius me procurou avisando que o cantor da Tok & Cor havia decidido ir embora para o Brasil e me convidou para ser o cantor da banda, mas eu já estava colocado no mercado para que iria querer assumir de cantor em uma banda que sequer tinha trabalho ou agenda na cidade.

Mas a Norma que se intitulava minha empresária então comentou que com uma banda poderíamos sonhar mais alto do que uma taberna e de repente conseguiríamos shows em clubes ou em casas maiores e que por conseqüência pagavam mais, então topei o desafio.

“Café Del foro” foi a primeira casa grande que conseguimos show, foi sucesso total, e casa cheia. Me incomodava um pouco de ter de trabalhar com o nome da banda e não com o meu, afinal eu sempre tinha usado meu nome mesmo no Brasil e já tinha alguns fãs Madrileños, então negociei com os meninos para ser anunciado Chico Saratt e banda Tok & Cor, tudo certo quando se tem trabalho tudo fica mais fácil.

E neste café conhecemos juntos a Márcia e o Pedro, um casal de baianos de Salvador, com quem eu viajaria um mês depois acompanhado de uma amiga colorida para a Galícia para conhecer a “Playa de Las Catedrales” que ficava na província de Lugo que era banhada pelo mar cantábrico, fascinante, patrimônio da humanidade.

A Márcia era tecladista e era irmã de um músico bem conhecido na cidade e que já vivia há tempos em Madrid, o “Tarzan”. E ali também no “Café del Foro” conheci um cantor argentino chamado Raúl Porchetto autor de uma canção famosa na argentina sobre a guerra das Malvinas, a canção foi feita a partir de uma carta achada no bolso de um soldado inglês endereçada para sua mãe, carta essa que nunca chegou ao destino final, e que fora usada pela imprensa argentina na ocasião pra mostrar ao mundo a incerteza  dos soldados ingleses sobre a propriedade inglesa das “Falkland Islands”. Enfim! Essa carta que nunca chegou as mãos de sua mãe virou uma bela canção que muitas vezes me emocionei e emocionei pessoas ao cantá-la nos palcos da Espanha. 

Pero madre los que esta pasando aca, son igual a mi y aman este lugar, tan lejos de casa qui ni el nombre me acuerdo, porque estoy lutando, porque estoy matando.  Reina Madre! linda canção! quem quiser ouvir a canção eis abaixo o link, copie e coloque na barra de endereços e dedique quatro minutos, vale a pena!

http://www.youtube.com/watch?v=V5eH54EPpcQ

 

 

quarta 01 julho 2009 12:54


Com a atriz Denise Milfond em Madrid na feira popular "El Rastro"

Blog de chicosaratt :QUANDO EU FUI EMBORA, Com a atriz Denise Milfond em Madrid na feira popular 'El Rastro'

quarta 01 julho 2009 20:31


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